Levantamos os seis acidentes aéreos de maior repercussão pública no Brasil desde que o CENIPA (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, da Força Aérea Brasileira) passou a manter relatórios finais consultáveis. Todos os seis já têm relatório final publicado — o mais antigo, sobre o helicóptero que matou o então presidente da Câmara Ulysses Guimarães, é de agosto de 1993; o mais recente, sobre o avião que matou a cantora Marília Mendonça, só saiu em maio de 2023, quase dois anos depois do acidente.
| Nome | Data | Local | Aeronave | Relatório | | --- | --- | --- | --- | --- | | Ulysses Guimarães | 12/10/1992 | Paraty, RJ | Helicóptero HB-350B, PT-HMK | PT-HMK (1993) | | Mamonas Assassinas | 02/03/1996 | Guarulhos, SP | Learjet 25D, PT-LSD | PT-LSD (1996) | | José Carlos Martinez, deputado federal e presidente do PTB | 04/10/2003 | Guaratuba, PR | Maule M7-235, PT-OTR | RF041/CENIPA/2006 | | Eduardo Campos | 13/08/2014 | Santos, SP | Cessna 560XL, PR-AFA | A-134/CENIPA/2014 | | Gabriel Diniz | 27/05/2019 | Estância, SE | Piper PA-28-180, PT-KLO | A-082/CENIPA/2019 | | Marília Mendonça | 05/11/2021 | Piedade de Caratinga, MG | Beechcraft King Air C90A, PT-ONJ | A-121/CENIPA/2021 |
Ulysses Guimarães. O helicóptero que o levava de Angra dos Reis a São Paulo entrou numa área de tempestade entre Ubatuba e Paraty e colidiu contra o mar. O piloto não tinha certificado de voo por instrumentos; o relatório aponta como fatores contribuintes justamente ele ter, mesmo assim, entrado em condições que exigiam pilotagem por instrumentos — planejamento e julgamento classificados pelo CENIPA como "deficientes".
Mamonas Assassinas. A banda e a tripulação cumpriam uma jornada de trabalho de cerca de 17 horas — seis a mais do que permite a Lei do Aeronauta — quando o Learjet fez uma curva à esquerda rumo à Serra da Cantareira; a carta de rota e a torre indicavam à direita, área livre de obstáculos. O CENIPA aponta fadiga extrema da tripulação e erro de navegação como os fatores centrais.
José Carlos Martinez. O deputado, presidente nacional do PTB, morreu quando o monomotor que o levava de Curitiba a Navegantes colidiu com uma elevação da Serra do Mar sob nebulosidade baixa. O relatório final lista seis fatores contribuintes: condições meteorológicas adversas, instrução insuficiente do piloto na aeronave (adquirida um mês antes), julgamento inadequado, planejamento deficiente, falha de supervisão da empresa proprietária e indisciplina de voo — o piloto se desviou da rota autorizada sem avisar o controle de tráfego aéreo.
Eduardo Campos. O jato que levava o então candidato à Presidência de volta ao Rio de Janeiro caiu sobre um bairro residencial de Santos em condições de mau tempo. Com base na investigação do CENIPA, a Polícia Federal apontou quatro fatores: atitude do piloto, condições meteorológicas adversas, desorientação espacial da tripulação e indisciplina de voo.
Gabriel Diniz. O monomotor que levava o cantor de Aracaju para um show em Maceió se rompeu em pleno voo dentro de uma área de instabilidade atmosférica, com chuva forte. O piloto, sem habilitação para voo por instrumentos, reagiu com comandos bruscos ao perder a referência visual — o esforço superou o limite estrutural da asa direita, que se separou ainda no ar. O relatório registra ainda que a ANAC abriu processo administrativo contra o aeroclube proprietário da aeronave por suspeita de transporte aéreo remunerado clandestino: o voo era, oficialmente, de instrução — categoria que não pode transportar passageiro pagante.
Marília Mendonça. O bimotor que levava a cantora para um show em Caratinga fez uma aproximação de pouso com a "perna do vento" bem mais longa do que o padrão para o modelo — um perfil que, segundo o relatório, é mais típico da aviação comercial, onde o piloto trabalhou dez anos antes de migrar para o táxi aéreo. Nessa aproximação estendida, o avião colidiu contra o cabo para-raios de uma linha de transmissão de 69 mil volts que fica fora da zona de proteção do aeródromo, sem obrigação legal de sinalização. O impacto arrancou o motor esquerdo ainda em voo.
Em nenhum dos seis casos o CENIPA aponta culpa — por norma internacional (Anexo 13 da Convenção de Chicago, da qual o Brasil é signatário), o objetivo declarado da investigação é só prevenir novos acidentes, não apurar responsabilidade civil, penal ou administrativa. Ainda assim, em todos os seis relatórios finais, algum aspecto do fator humano — julgamento, planejamento, aplicação dos comandos ou percepção do piloto diante de uma situação adversa — aparece entre os fatores contribuintes. Condição meteorológica desfavorável aparece em quatro dos seis (não em Mamonas Assassinas, atribuído à fadiga da tripulação, nem em Marília Mendonça, cujo relatório registra que o tempo estava propício ao voo); falha mecânica não aparece em nenhum.